Precisamos falar sobre Orphan Black

Devo confessar que não sou uma dessas pessoas fanáticas por séries. Não consigo maratonar e desde que a forma de assistir séries mudou, por volta do fim dos anos 90, inicio de 2000, eu fiquei meio perdido e apenas consigo acompanhar uma ou outra pela qual eu me interesse mais. Por isso acabo ficando um pouco de fora deste atual mundo de viciados em Netflix e quando termino alguma ocasional que tenha resolvido assistir estou sempre atrasado na rodinha. Foi assim com Orphan Black.

Orphan Black, caso você não conheça, é uma série de ficção científica original da BBC America que posteriormente foi exibida no Brasil pela Netflix, que adquiriu os direitos de exibição dela no país. Ela teve um total de 5 temporadas e foi concluída em junho de 2017. A descobri por acaso, possivelmente por indicação da Netflix baseada nos meus gostos pessoais. Assisti o primeiro episódio e fiquei realmente impactado. A série logo de cara trazia várias coisas que eu gosto. Mas você se engana se acha que isso foi o suficiente pra me prender. Deixei aquele episódio no fundo da gaveta de “um dia eu concluo” e segui com a vida…

Porém, num dia de paciência e ócio abri essa gaveta e decidi prosseguir com ela. Afinal, eu tinha gostado tanto e tinha ouvido falar bem, tinha que continuar. E ainda bem que o fiz (mesmo que um tanto quanto atrasado)!

A série gira ao redor de Sarah Manning, interpretada pela atrizona da porra Tatiana Maslany, uma mulher “rebelde” (digamos assim), que descobre várias outras mulheres idênticas a ela vivendo vidas completamente diferentes ao redor do mundo. O desenrolar da história envolve muita ficção científica, suspense, trama policial e problemas familiares, com Tatiana interpretando todas as versões de si mesma – tão bem que você consegue identificar qual personagem é qual mesmo quando elas estão tentando se passar uma pela outra.

O timing está um pouco atrasado (quase um ano depois do fim da série) mas vou tentar não dar spoilers no texto mas pode ser que algumas informações gerais da série sejam consideradas como tal por alguns, então… ATENÇÃO!!

Além de diversos pontos na trama me fazerem pensar que fui eu quem escreveu essa história – muitos temas de meu interesse todos juntos no mesmo lugar (doppelgangers, protagonismo feminino, menção a alice no país as maravilhas e quadrinhos, etc) – como citei acima, acho a série muito importante por alguns outros motivos que vou listar aqui:

1. Protagonismo feminino

Não sei se pelas principais figuras da minha vida sempre terem sido mulheres, por admiração pelo gênero ou qualquer outro motivo, sempre preferi histórias em que a protagonista fosse uma mulher. E obviamente é isto que ocorre com Orphan Black. Mas mais do que isso… Não é apenas a personagem principal que é mulher. Quase todas as outras personagens também são. Os homens aparecem, claro, mas sempre como coadjuvantes. Se existe alguma série que passa no teste de Bechdel (aquele que para ver se a obra é machista questiona se ela possui pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem) é Orphan Black. As personagens são bem desenvolvidas, não precisam, dependem ou muitas vezes mesmo querem homens em suas vidas. Mostram que a mulher é um ser completo, independente e que não precisa do já conhecido romance com o galã, presente em 10 entre 10 roteiros que envolvem personagens femininas. Se aparecem casais, beijo ou romance? Claro. Mas o que quero dizer que isso não é o foco principal da série – e especialmente de sua protagonista.

2. Personagens mais velhos importantes

Outra coisa que pude perceber ao longo da série foi a importância dos personagens mais velhos – especialmente mulheres. Isso costuma ser um problema grave para as atrizes que ao envelhecerem vão perdendo papéis para mulheres mais novas e “atraentes”. Já percebeu que nas continuações dos filmes os protagonistas homens permanecem interpretados pelos mesmos atores ao envelhecer mas as protagonistas mulheres continuam com a mesma idade (trocando as atrizes, claro)? Orphan Black não só valoriza as atrizes com mais idade, ao dar a elas os papéis importantes que merecem, como ajuda a mudar nossa mente a respeito dos mais velhos, dando mais visibilidade e menos desprezo a segunda e terceira idade, indo de frente ao que costuma acontecer no mundo real.

3. Positividade ao tratar de homossexualidade

Na série, pelo menos dois dos personagens principais são homossexuais assumidos. Até aí nenhuma novidade, hoje em dia quase toda produção tem também. O que me chamou atenção aqui foi o tratamento dado aos personagens. Não só a sexualidade deles é abordada de forma muito natural, sem grandes revelações ou questões morais acerca dela (pelos produtores da série e também pelos personagens) como também é mostrada de forma positiva. O que quero dizer com isso? Bom, é uma série de ficcção, policial e suspense, logo conflitos surgem a todo instante. Perseguições, ameaças, brigas… Tudo o que pode acontecer neste tipo de obra acontece de fato. Mas em nenhum momento os personagens, nem os vilões, fazem menção a sexualidade dos personagens para ofende-los ou atingi-los. Por vezes parece até surreal, já que isto acontece de fato na vida, mas achei que foi uma boa escolha. Além de já estarmos cansados de ver isso nos jornais e outras obras de ficção, deste modo a série consegue focar nos problemas que ela quer e mostra que ser gay é algo natural e que não deveria ser usado para ofender ou oprimir ninguém.

4. A ausência do par romântico

Não me entenda errado, é claro que existem casais e que a protagonista se envolve romanticamente com outros personagens ao longo do desenrolar da história. Coisas da vida. Mas diferente da maioria esmagadora das outras produções com protagonistas femininas isto não é nem de longe o foco aqui. Inclusive, neste aspecto, a figura da Sarah se assemelha muito ao dos protagonistas homens de filmes de ação voltados ao público masculino. Ela pega um aqui, outro ali, tem um interesse acolá… Mas nada que a faça desistir de seus objetivos ou a prenda por muito tempo. Já passou da hora de achar que mulher vive pra achar príncipe encantado, né? Ela é dona da própria história e não precisa de ninguém para salvá-la. Isso além de ser extremamente valioso para empoderar as mulheres também serve de ensinamento para uma sociedade que acha que todos somos incompletos até formarmos um par. A gente pode sim namorar, casar, etc mas não devemos viver em função disso. Se rolar, rolou.

5. A quebra de estereótipos

Tatiana Maslany interpreta diferentes tipos de pessoas em Orphan Black, o que já ajuda a vermos como a aparência não define muito sobre uma pessoa. Mas claro que não para aí. A série se aprofunda na vida dessas personagens fazendo com que a gente veja que elas não são nada daquilo que julgamos da primeira vez que as vimos. E isso para os dois lados. Os personagens que parecem certinhos e bonzinhos acabam tendo atitudes radicais enquanto outros que primeiro pensávamos ser o mal encarnado são capazes de compaixão e atos de bondade. Trazer personagens que fogem do preto e branco passeando por todas as nuances de cinza o tempo inteiro nos faz pensar se eles são vilões ou mocinhos e é um ótimo exercício para percebermos que todos temos os dois lados e podemos parecer uma coisa ou outra dependendo de quem é o referencial.

E você?

E se depois de tudo isso você ainda ficou na dúvida se assiste ou não a série, pode deixar que tudo isto é mostrado de forma natural e quase imperceptível atrás de uma história de perseguição, ação, viagens sobre o futuro da ciência e diálogos ácidos e descontraídos. Ou será você já assistiu e quer falar algo que deixei escapar? Usa os comentários e me conta!

Post Author: Marcio Oliveira

2 thoughts on “Precisamos falar sobre Orphan Black

  • Drica

    (18 de março de 2018 - 20:15)

    Adorei a leitura sobre a série. Assisti ela todinha no ano passado e gostei sem fazer grandes análises como as sugeridas. Gostei pelo suspense e pela trama e, no contexto da trama, a única coisa que tinha parado pra refletir e adorado: essa irmandade, essa luta e obstinação de mulheres de se apoiarem e manterem todas vivas ainda que sob o mote do vínculo genético. Tantas estranhas, com diferentes vidas, unidas entre si.

    • Marcio Oliveira

      (20 de março de 2018 - 13:00)

      Né? A questão da sororidade está bem presente mesmo e é um dos pontos principais da série, que vai de encontro a esse protagonismo feminino. E é legal ver que sempre vamos descobrindo novas visões e interpretações das coisas que as vezes não vemos e outros vêem! Que bom que gostou!

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