Da Terra à Lua sem glamour

Um filme do diretor de La la land com Ryan Gosling indo pra Lua. Todos os cinéfilos e amantes de astronomia correm pra ver! E o diretor Damien Chazelle, de apenas 33 anos, mais uma vez nos entrega uma obra prima, diferente de todos os filmes de espaço que já vimos. O que é bem difícil, pois se tem algo que tem tudo pra ser clichê é filme de missão espacial, onde temos aquele roteiro totalmente previsível: perrengue, perrengue, perrengue, até alcançar o sucesso da missão, quando sobe a música e vemos nosso astronauta-herói caminhando solenemente pelos corredores da Nasa em seus trajes espaciais. Olhando desse ponto de vista, aqui não é diferente, afinal a história de toda missão espacial é quase sempre a mesma, muito esforço e perdas envolvidas para fazer o impossível. E justamente por isso “O primeiro homem” é brilhante ao nos apresentar a mesma jornada, porém sob um ponto de vista totalmente novo.

Focado 100% na figura de Neil Armstrong, chefe da missão Apollo 11 que chegou pela primeira vez com sucesso a lua e foi o primeiro homem a pisar no solo lunar, a ideia segundo o diretor foi mostrar o lado da história que você não conhece sobre esta missão. E tentar ao máximo fugir dos clichês já exibidos a exaustão como a imagem do astronauta fincando a bandeira americana no nosso querido satélite. Aqui temos um Neil Armstrong pai, marido, abalado por um trauma terrível que comentarei mais a frente por se tratar de um grande spoiler. Acompanhamos sua jornada pessoal de perdas, angústias e horas infinitas de dedicação ao trabalho, para enfim entendermos porque foi ele e tinha que ser ele a primeira pessoa a alcançar tal façanha.

Repetindo parte da equipe de sucesso de La la land, temos aqui o mesmo cinematógrafo e o mesmo compositor de trilha sonora. Este último, está totalmente fora de sua zona de conforto. Jazzista e amigo de faculdade de Chazelle, aqui ele tem a missão de criar uma trilha tensa e ao mesmo tempo heróica, e faz bonito apenas de não ter o mesmo brilho de La La Land e Whiplash, onde nos entregou melodias grudentas e maravilhosas. A trilha foi um pouco mais que correta mas nem de longe ficou tão marcante e emocionante como a trilha de Interestelar. Já a fotografia eu particularmente não gostei em nada. Esquece as cores e os lindos planos de La la land. Tudo aqui é escuro, com planos fechados, muitas vezes você mal vê ou entende o que está acontecendo. Com certeza o objetivo foi exatamente esse, para nos colocar no clima soturno, solene, claustrofóbico da vida de um astronauta com uma missão impossível pela frente e abalado por um trauma pessoal. Mas achei realmente que faltou apelo visual, o que só acontece nas cenas na Lua que são belíssimas.

Já o roteiro também não tem o mesmo pique de La La Land e Whiplash que foram escritos pelo próprio Chazelle. “O primeiro homem” usou o mesmo roteirista de “Spotlight” e de “The Post” e isso explica muita coisa né pessoal… o filme é longo, parece longo, e se arrasta em vários momentos. Me peguei pensando algumas vezes, “ai meu Deus ainda estamos em 1965 e faltam 4 anos pra chegada na Lua, quanto tempo ainda vou ficar nesse cinema?”. O que pra mim não é um problema pois ficaria o dia inteiro assistindo filme de espaço, mas com certeza por ter pensado isso já é um mau sinal de roteiro sem energia. Essa sensação é acentuada nas cenas que exploram a vida familiar do astronauta, com um casal sem química e uma relação fria, o que é compreensível pela história que viveram e pela missão extremamente perigosa que Neil tem pela frente, mas que acaba sendo um pouco entediante para quem assiste.

Claire Foy em atuação correta, mas que não pode fazer muito pela sua personagem chata.

Já as cenas das missões espaciais, tanto das missões de teste como da missão final à lua, são altamente apavorantes prendendo o espectador na cadeira em todo o momento. Palmas para o design de som que fez um trabalho excelente com o ranger do metal da nave deixando o espectador de-ses-pe-ra-do achando que aquilo vai se despedaçar a qualquer momento. Com certeza essa é a sensação que o astronauta sente naquele cubículo claustrofóbico da cabine de comando, e o filme foi extremamente realista ao nos colocar na pele deles: nave girando descontrolada, força centrífuga quase arrancando sua cabeça fora, Houston avisando que você vai desmaiar em 40 segundos, seu companheiro de viagem já totalmente apagado do seu lado, metal fazendo barulhos apavorantes, e você tendo que fazer contas e se virar sozinho pra conseguir estabilizar a nave e sobreviver. Agora entendi porque para ser astronauta você precisa ser acima de tudo um bom piloto, e claro, ser também um super humano: sem medo, sem pânico, sem claustrofobia e sem labirintite.

Resumindo, “O Primeiro Homem” é um filme incrível por nos contar o lado desconhecido da façanha mais importante da humanidade, de forma extremamente realista, sem o glamour dos filmes tradicionais de espaço. Tem astronauta vomitado, nave feia e apertada, uma Nasa cinzenta com dias nublados e galpões com cara de abandonados, e astronautas morrendo a torto e a direito.

 

Final comentado com spoilers

Ah você já viu o filme? Vamos falar então sobre o emocionante final onde Neil Armstrong joga a pulseira da sua filha numa cratera lunar. A primeira coisa que todo mundo pensou é “será que foi verdade mesmo?”. O roteirista do filme contou em entrevista que é muito difícil ter certeza pois, apesar de ser uma tradição dos astronautas levarem objetos de entes queridos para depositar no espaço, Neil era um cara muito fechado que odiava falar com a imprensa e fugia dos holofotes. Então ele nunca revelaria algo tão pessoal. Mas há fortes indícios que ele tenha levado mesmo um objeto de sua filha para colocar no satélite, já que ele disse que seu kit pessoal (que todos os astronautas levam pro espaço) sumiu misteriosamente, o que já foi confirmado que não é verdade e deve ter sido apenas uma desculpa para não revelar o conteúdo do seu kit para a imprensa. Aliado a isso temos a tradição de levar objetos ao espaço e relatos da família contando que Neil guardava com carinho os objetos da filha. Logo, sim, é bem possível que ele tenha depositado no solo lunar um objeto da pequena Karen.

Mas o intrigante é ver o quanto o pouso na lua mexeu com os astronautas. A maioria dos 12 homens que voltaram de lá viraram religiosos após a experiência a ponto até de fundarem igrejas. Agora imagina um astronauta que perdeu a filha pequena, chegando pela primeira vez na Lua com o mundo inteiro observando esse momento. Foram muito lindas e realistas as cenas dele pisando no solo lunar, olhando ao redor, aquele vazio, solidão, e ao mesmo tempo sabendo a importância daquele momento pra humanidade. Mas no meio disso tudo a única coisa que vem à cabeça é a imagem da sua filha. Tocante ao extremo. Você pode ter a lua mas o que adianta sem ter do seu lado as pessoas que você ama? Nesse momento o filme fez seu pay off e levou a platéia às lágrimas.

 

E você o que achou desse filmaço? Conta pra gente queremos debater!

E até mais pessoal!!

Post Author: Ana Campos

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