Jogos Indie ou AAA – Hollow Knight mostrando que “menos é mais”

Quem joga muito videogame às vezes passa por um momento de saturação. Parece que os jogos começam a se repetir, e a sensação é a de que já jogamos todos eles antes. E então pensamos “não se fazem mais jogos como antigamente” ou “esses jogos de hoje em dia são todos iguais”, e o interesse por jogos diminui. A gente normalmente acaba se atendo apenas aos nossos jogos preferidos, e tudo que surge de novidade deixamos passar porque “com certeza é mais do mesmo”.

Aí a gente joga um indie. Mas quem quer jogar um jogo low budget?

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O preconceito com os indie games vem de uma questão bem óbvia: produção modesta. Em tempos de jogos que gastam milhões de dólares para serem produzidos, com gráficos ultra realistas e equipes de 700 pessoas, pagos por uma publicadora cheia de dinheiro, um jogo feito por uma equipe de 5, 3, as vezes UMA pessoa, e sem dinheiro investido por publicadoras, não costuma gerar muito interesse. São jogos muito “simples”.

Bom, aí temos uma discussão do que significa ser simples, né.

Menos dinheiro significa um jogo menor em escala, realmente. Mas dinheiro não é sinônimo de qualidade. Já vemos isso na indústria de filmes e de música há muito tempo.

E não é nem uma questão de genialidade. Não é necessário que haja uma originalidade assustadora pra que se faça um bom jogo com pouco recurso.

Terminei de jogar Final Fantasy 15, e ainda faltavam 3 semanas pra lançar o próximo jogo que pretendia jogar: Monster Hunter Generations Ultimate. Dois jogos enormes, tanto de produção quanto de tempo que demandam pra serem jogados. Queria encaixar um jogo menor entre eles 2 e pensei: hora de jogar um indie. Peguei o Hollow Knight. E essa minha relação com os  jogos independentes – de vê-los como boas opções para preencherem um tempo curto entre jogos maiores que quero jogar – entrou em crise. Hollow Knight tem me oferecido uma experiência muito mais interessante do que diversos jogos AAA.

Não considero que minha reação positiva seja uma questão relacionada ao estilo do jogo. Hollow Knight segue a velha fórmula “Metroidvania”, de exploração e progressão não-linear 2D, o que acho muito legal, mas nunca foi meu gênero favorito. Nem é necessariamente super original, claro, seguindo essa fórmula que se consagrou na era 16 bits, e que vem sendo revisitada diversas vezes em todas as gerações seguintes até hoje. O jogo simplesmente entrega com qualidade tudo o que se presta a ser.

Final Fantasy levou uns 10 anos para ficar pronto, mesmo com uma equipe enorme trabalhando nele. E apesar de todo esse tempo e recurso, o RPG com proposta de mundo aberto, inicialmente super cativante, mostrou vários problemas com a câmera nas batalhas e, estranhamente, em determinado ponto do jogo, perde a característica de mundo aberto e passa a ser tão linear quanto outros jogos da série, criticados exatamente por esse aspecto. Me diverti bastante, o jogo é realmente muito bonito, empolga nas batalhas com músicas épicas e um bom sistema de combate, além de ter conseguido apresentar 4 personagens muito carismáticos num relacionamento emocionante que sustenta a narrativa toda do jogo. Mas não posso evitar de me decepcionar com o andamento do jogo, que parece desistir da sua própria proposta no meio do caminho, como se a produção tivesse tido algum problema que os obrigou a enxugar a segunda metade da campanha. Dez anos, custo altíssimo, longa espera dos fãs, preço cheio, e uma experiência que deixa a desejar em alguns pontos.

Hollow Knight faz tudo o que se espera dele e da melhor forma. O jogo não tenta ser realista e é lindo com sua arte 2D bem detalhada e animação de qualidade. Dentro da fórmula já conhecida que adota, ele é engenhoso. A progressão não cansa, e quanto mais avançamos na exploração, mais vontade temos de jogar. A atmosfera mistura de forma impressionante o sombrio com o divertido, com cenários escuros, música melancólica, e design divertido dos personagens insetos. As falas são apenas sons sem palavras reais, se valendo de texto para contar a história, mas a dublagem faz um ótimo serviço de dar vida aos personagens únicos e carismáticos. A alta dificuldade do jogo não é fruto de defeitos frustrantes, mas sim de escolha de design, feito para o público que gosta de desafio, e sempre recompensador.

httpssss://youtu.be/UAO2urG23S4

E tudo isso por um preço muito mais acessível do que o padrão de 60 dólares cobrados nos jogos de grandes publicadoras. Aliás, sem a limitação delas, os desenvolvedores tem muito mais liberdade de criar essa experiência incrível.

A ideia desse post não é dizer que Hollow Knight é melhor que Final Fantasy 15, até porque seria uma comparação descabida. São jogos muito diferentes, e eu gostei muito dos dois. Mas quis levantar uma reflexão (que não é nova) sobre o que faz um jogo ser “bom”. Questionar o lugar dos indie games, não no mercado, porque lá eles já tem ocupado cada vez mais espaço . Quero questionar (e tenho me questionado) o lugar dos jogos independentes para nós, gamers. O que estamos buscando nos AAA que achamos que só se encontra lá.

E não sou só eu que estou migrando minha atenção das grandes publishers para as desenvolvedoras independentes. Os próprios profissionais da área tem largado cargos altos nas grandes empresas para fundarem seus próprios estúdios menores. Há algo de muito errado na indústria de games que parece estar fortalecendo o mercado indie. Tudo tem seu lado positivo, afinal.

No final do mês começo meu Monster Hunter, e o próximo jogo que já sei que vou jogar é Super Smash Bros Ultimate, que será lançado só em dezembro. Dessa vez o gap vai ser bem maior. Daria pra encaixar um belo de um AAA entre esses dois, mas agora meus planos estão começando a mudar. Talvez eu acabe preenchendo esse tempo com 2 ou 3 indies. E provavelmente, daqui a uns anos, se a Team Cherry lançar uma continuação de Hollow Knight, ele já vai entrar direto na minha agenda de jogatina. Talvez eu escolha um AAA para preencher o intervalo entre ele e outro indie.

 

Post Author: Felipe Lyrio

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